Fogo e paixão

 

Filme: ASSUNTO DE MENINAS

Nome original: Lost and delirious (Canadá, 2001)

Roteiro: Judith Thompson, baseado no romance "The Wives of Bath" de Susan Swan

Produção: Greg Dummett, Lorraine Richard, Louis-Philippe Rochon

Direção: Léa Pool

Lady Macbeth -- "Come, you spirits

That tend on mortal thoughts, unsex me here,

And fill me, from the crown to the toe, top-full

Of direst cruelty! make thick my blood,

(...) come to my woman's breasts,

And take the milk for gall, you murdering ministers,

Wherever in your sightless substances

You wait on nature's mischief!"

(William Shakespeare, Macbeth, act I, scene V)

 

 

 

 

 

Mary (Mischa Barton), uma garota que perdeu a mãe, é enviada pelo pai e pela madrasta para estudar num colégio interno feminino. Lá ela divide o quarto com as amigas Paulie (Piper Perabo) e Victoria, ou Tory (Jessica Paré). Mary, que também atende pelo apelido de Mouse, por se comportar como um ratinho assustado, não demora a descobrir que as duas companheiras de quarto têm um caso secreto, mas não se importa muito com isso. Até que as duas são surpreendidas na cama pela irmã menor de Tory (Emily VanCamp). Esta, então, inventa uma desculpa para a irmã, se afasta de Tory e passa a namorar um colega de seu irmão, Jake (Luke Kirby). Paulie não se conforma com a decisão da amiga e entra em surto.

 

Essa é a trama, mas há vários detalhes que contribuem para que as personagens sejam extremamente ricas e cativantes. Todas as garotas têm algum problema mal-resolvido com as respectivas famílias: Mary sente culpa por não se lembrar bem do rosto da mãe, não se dá com a madrasta e se sente abandonada pelo pai, a ponto de procurar uma figura paterna no jardineiro da escola (Graham Greene); Tory tem tanto medo da reação dos pais carolas à sua relação com Paulie que prefere renunciar a seu amor que enfrentar a família; e Paulie, que é adotada, tenta encontrar a mãe biológica, uma prostituta que foi obrigada a abrir mão da filha recém-nascida, mas descobre que a mãe não quer conhecê-la. O paradoxal é que Mary é a única das três cuja mãe está morta, mas tem certeza de que foi amada por ela, e isso fará toda a diferença no final.

 

Mary é a narradora da história, uma personagem que mais observa do que age, mas fica claro que estamos diante da delicada passagem de menina a mulher, que nesse caso se dá através da amizade com duas mulheres apaixonadas. Paulie, no entanto, é a personagem mais interessante do filme. Logo no começo, ela e Tory se denominam as "garotas perdidas", versão feminina dos garotos perdidos de Peter Pan, e uma delas completa: "Lost and delirious" (perdidas e delirantes, o título original do filme). Pois Paulie se torna cada vez mais delirante à medida que a história avança. Ela adota um falcão machucado e se empenha em curá-lo para que ele possa voar, e o animal acaba se tornando uma metáfora até um tanto óbvia demais para sua natureza rebelde e indomável. Por outro lado, ela se inspira no monólogo de Lady Macbeth que reproduzi acima, em que a ambiciosa rainha de Shakespeare pede aos espíritos do mal que lhe tirem o sexo, que lhe engrossem o sangue, que transformem seu leite em fel, para que assim ela perca a fraqueza feminina e possa realizar seus intentos.

 

A certa altura do filme, Mary pede a Paulie que esqueça Tory, pois esta "não é lésbica". Paulie reage: "Lésbica? Nós não somos lésbicas!" "Mas você é uma garota apaixonada por outra garota..." "Não, eu sou Paulie que ama Tory!" Esse diálogo e o monólogo de Lady Macbeth, na minha opinião, são as chaves para se entender a personalidade de Paulie. Ela não se aceita como homossexual; se se aceitasse, talvez entendesse que aquele não era o fim do mundo, que outras mulheres interessantes apareceriam no futuro. Mas ela acredita que sua relação com Tory é única, e por isso não se conforma em perdê-la. Por outro lado, também tem dificuldades em se aceitar como mulher, talvez por não ter tido uma mãe que funcionasse como modelo feminino, e daí sua obsessão com o texto de Shakespeare.

 



 

Assunto de meninas é um título infeliz, pois dá uma impressão de que o filme canadense é mais uma comedinha teen GLS. Ledo engano: estamos diante de um belo filme, que retrata todo o fogo e paixão que podem consumir um coração adolescente.


Veja aqui um clipe com imagens do filme ao som da belíssima canção You had time, de Ani DiFranco, uma de minhas músicas preferidas e que inclusive comento em meu blog Music is my air:

 

 

 

 

Originalmente publicado no Lost in the movies no dia 4 de julho de 2003; republicado no antigo Filmes de Cabeceira em 19 de junho de 2004.

 

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