Delirante, provocativo, polêmico... um filme à frente de seu tempo

 

Filme: PACIENTE ZERO

Nome original: Zero Patience (Canadá, 1993)

Produção: Louise Garfield, Anna Stratton

Roteiro e direção: John Greyson



"If patience is a virtue, then I`m a sinner from hell
Cause we only want one thing:
We just want to be well
If patience is a virtue, then I`ve got none."
(John Greyson, Glen Schellenberg - Zero Patience)


Vi esse filme na época em que foi exibido aqui em São Paulo, em 1993 ou 94, e gostei tanto que depois tentei inutilmente encontrá-lo em vídeo ou DVD. Isso até sexta-feira passada, quando o filme foi escolhido para abrir a mostra especial de filmes sobre AIDS no Espaço Unibanco e assim tive a chance de revê-lo e confirmar a ótima impressão que tive dele. [Nota do autor: esse texto foi originalmente escrito em 10 de agosto de 2004. Hoje, graças a uma loja importadora de cds e dvds da qual sou cliente, sou o feliz proprietário de um dvd importado do filme Zero Patience.]

Na época em que foi exibido, o filme foi recebido a pedradas pela crítica, que não achou graça dessa versão musical e paródica sobre o surgimento da AIDS. Vendo o filme hoje constato que ele estava muito à frente de seu tempo, inclusive levantando questões bastante atuais como o alto preço das drogas contra a doença e o direito dos pacientes a uma medicação gratuita, questão na qual o Brasil tem sido pioneiro. Talvez a produção canadense não tenha agradado a princípio por ter sido feita numa época em que AIDS ainda era sinônimo de morte certa e lenta, e muita gente não suportar ver o assunto tratado com humor. Na minha opinião, e sei que muita gente não concorda, acho que o humor é uma maneira bastante saudável de se tratar de um assunto tabu -- desde que esse humor não seja grosseiro, apelativo ou preconceituoso.

Paciente Zero é uma fantasia que parte do princípio de que o aventureiro e escritor inglês do século XIX, sir Richard Burton (John Robinson), que entre outras façanhas traduziu as Mil e uma Noites e o Kama Sutra para o inglês, não só ainda está vivo como é jovem e belo graças a uma Fonte da Juventude e vive no Canadá como taxidermista de um museu de história natural. Entediado com seu trabalho, Burton, que é chamado de Dick (ou Pinto na tradução brasileira) pelos mais íntimos, resolve investigar a vida do comissário de bordo franco-canadense que era considerado o primeiro homem a trazer a AIDS para a América, e por isso passou para a História como o Paciente Zero (o lindo Normand Fauteux). Sua pesquisa acaba trazendo o fantasma de Zero do além para desmistificar os mitos que cercam a doença e acabar com o preconceito em relação ao tema -- e ainda, de quebra, seduzir o vitoriano sir Richard.

Essa história é contada no formato de um musical camp com uma sonoridade de teclados-anos-80, e as canções servem para que alguns dos "culpados" pela epidemia da AIDS, incluindo gays, toxicômanos, macacos africanos e até mesmo o vírus HIV, na pele de uma drag queen interpretada pelo ator Michael Callen, que morreu da doença logo após as filmagens e a quem o filme é dedicado, possam se defender e desmentir a idéia de que precise haver um "culpado" por uma doença. A ótima trilha sonora, assinada pelo diretor John Greyson e por Glen Schellenberg, inclui até um impagável dueto entre dois cus -- isso mesmo, só vendo pra acreditar!

Paciente Zero pode não ser um filme para todos os paladares, mas no mínimo tem o mérito de abordar um tema polêmico e delicado de uma maneira totalmente original e única.

 

 

"I`m positive I`m here
I`m positive I care
I`m positive that there`s nothing to be sure of
I'm positive, I`m positive, I`m positive I'm alive
I'm positive that I`m going to die...
Sometime"
(John Greyson, Glen Schellenberg - Positive)

(Leia também, em inglês, a ótima crítica escrita por Michael D. Klemm em seu site Cinema Queer.)

 

No vídeo, Normand Fauteux interpreta a canção Just Like Schaharazade, de John Greyson e Glen Schellenberg, que abre o filme.

 

Publicado originalmente no antigo blog Filmes de cabeceira em 10 de agosto de 2004.

 

 

E viva a diversidade!

 

Filme: PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO

Nome original: The adventures of Priscilla, queen of the desert (Austrália, 1994)

Protdução: Al Clark e Michael Hamlyn

Roteiro e direção: Stephan Elliot


 

A drag queen Mitzi (Hugo Weaving), ou Tick quando está "à paisana", cansada da vida em Sidney, recebe um telefonema da ex-mulher lésbica Marion (Sarah Chadwick), gerente de um hotel em Alice Springs, convidando-o para apresentar seu show de transformistas no hotel. Tick convida a colega Felicia (Guy Pearce), ou Adam, uma drag desbocada e muito louca, e a transexual Bernardette (Terence Stamp), que acaba de ficar viúva, para atravessarem o país num ônibus psicodélico batizado de Priscilla, rainha do deserto. Nessa viagem, os três encontram preconceito, violência e também a inesperada simpatia de um grupo de aborígenes. Bernardette encontra até o amor, na pessoa do mecânico Bob (Bill Hunter), e Tick é obrigado a se confrontar com seu medo de assumir a paternidade do garoto Benji (Mark Holmes).

Grande parte do humor de Priscilla é derivado do contraste entre figuras tão urbanas quanto as drag queens e o rústico e inóspito deserto australiano. Priscilla funciona porque seus personagens são complexos e extremamente bem construídos. O filme não paternaliza os personagens, mostrando-os com todas as suas contradições, mesquinharias e humanidade, ao contrário por exemplo daquela terrível imitação americana batizada de Para Wong Foo, obrigada por tudo, Julie Newmar.

A trilha sonora recheada do que há de mais gay na música disco dos anos 70, incluindo de Gloria Gaynor e Village People ao grupo Abba, e os figurinos inacreditáveis contribuem para a delícia que é assistir esse filme. Algumas das cenas inesquecíveis: Adam no teto do ônibus de vestido de cauda prateado dublando uma ária de Verdi; o aborígene (Alan Dargin) que se monta para dublar I will survive; a oriental desbocada (Julia Cortez) que apresenta um infame número envolvendo bolinhas de ping-pong; o "cocozinho" que Adam guarda como se fosse uma relíquia de uma das cantoras do Abba; as três amigas subindo as rochas de vestido e tênis; e o espetáculo que apresentam no hotel, com figurinos que "homenageiam" a fauna e a flora australianas.



 

Priscilla é um filme que realmente celebra as diferenças e a diversidade, com humor e sem demagogia.


No vídeo, Hugo Weaving, Guy Pearce, Terence Stamp e Alan Dargin dublam Gloria Gaynor para alegria dos aborígenes!

 

Originalmente publicado no blog Lost in the movies em 21 de julho de 2003; republicado no antigo Filmes de cabeceira em 29 de junho de 2004.

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