Todos precisamos de uma testemunha

 

Filme: DANÇA COMIGO?

Nome original: Shall we dance? (EUA, 2004)

Roteiro: Audrey Wells, baseado no roteiro de Masayuki Suo para o filme Shall we dansu?

Produção: Simon Fields

Direção: Peter Chelsom

"We need a witness to our lives. There's a billion people on the planet... I mean, what does any one life really mean? But in a marriage, you're promising to care about everything. The good things, the bad things, the terrible things, the mundane things... all of it, all of the time, every day. You're saying 'Your life will not go unnoticed because I will notice it. Your life will not go un-witnessed because I will be your witness'."
(fala de Susan Sarandon em Dança Comigo?)


Tive uma professora de Ciências na sétima série que teoricamente deveria incluir educação sexual no currículo, mas embora fosse uma mulher jovem e bonita, nesse departamento só dizia bobagens, que não vale a pena repetir aqui. Mas às vezes ela também resolvia dar uma de expert em relacionamentos, e uma vez nos contou que seu pai a chamou para uma conversa séria e lhe disse que não amava mais sua mãe. "Eles vão se divorciar", foi o que ela pensou imediatamente. Mas o pai continou: "O amor acabou, mas se transformou numa amizade profunda, tão valiosa que eu não saberia viver sem sua mãe." Mesmo na inocência dos meus 13 anos, lembro que pensei, "Mas não será justamente essa amizade profunda o verdadeiro amor, e aquilo que acabou era só o fogo da paixão?"


Pois é dessa questão que trata o filme Dança Comigo?, refilmagem americana de um filme japonês de mesmo nome. Eu vi o filme japonês há muito tempo atrás, tanto que não me recordo bem dele, mas sei que há muita gente que prefere o filme original ao americano. Esse geralmente é o meu caso também, mas nesse caso específico, talvez por ser ocidental e me identificar mais facilmente com a sociedade americana do que com a japonesa, tenho que ser fiel à minha preferência pela refilmagem, e é dela que falaremos aqui.


John Clark (Richard Gere) é um advogado especializado em testamentos, que tem uma vida aparentemente estável e feliz com a esposa, Beverly (Susan Sarandon) e os dois filhos adolescentes, um casal (Tamara Hope e Stark Sands). Um dia, voltando do trabalho de trem como sempre faz, John avista a janela de uma escola de dança e nela vê uma mulher que olha para fora, com um olhar de tristeza e nostalgia com o qual ele se identifica, pois percebe que há algo faltando em sua vida, algo que não consegue exatamente nomear. Depois de ver a mesma mulher repetidas vezes, um dia num impulso John sai do trem naquela estação e vai à escola de dança, decidido a descobrir o mistério daquela mulher. Como para isso é necessário se matricular na escola, ele o faz e imediatamente começa a ter aulas com a proprietária, a sra. Mitzi (Anita Gillette), e ganha dois "colegas de classe", o desajeitado e obeso Vern (Omar Miller), que quer aprender a dançar para impressionar sua noiva (participação especial da cantora Mya Harrison), e o falastrão latino Chic (Bobby Cannavale), o qual vive repetindo que quer aprender a dançar para seduzir garotas, embora a verdade não seja bem essa. John também fica conhecendo outras figuras para quem a dança é importante parte de suas vidas: é o caso da esfuziante Bobbie (Lisa Ann Walter), uma mulher de meia idade, solitária, que encontra na dança uma razão pra seguir vivendo, e o envergonhado Link (Stanley Tucci), um jornalista esportivo que na verdade odeia esportes e se disfarça de amante latino, de peruca e tudo, para frequentar as aulas de Miss Mitzi.


No meio de toda essa gente circula a misteriosa e enigmática figura da professora Paulina (Jennifer Lopez, que se sai muito bem num papel extremamente introvertido, bem diferente de sua persona pública). Paulina parece levitar pelo salão, encantando a todos com sua técnica e habilidade para a dança, mas pouco fala e mantém sempre o olhar triste, o que aumenta o fascínio de John. Ele fica sabendo que a tristeza da moça vem de um trauma ao mesmo tempo emocional e profissional, mas quando tenta se aproximar, leva um "chega-pra-lá" capaz de desencorajar qualquer Casanova. Pensa em desistir das aulas, mas acaba percebendo que o hábito de dançar todas as semanas o torna uma pessoa mais leve, e por que não dizer, mais feliz, e segue dançando.

Ao ver o marido tão feliz, e tão diferente do habitual, a esposa, como é natural, pensa que o marido arrumou uma amante e contrata uma dupla de detetives (os impagáveis Richard Jenkins e Nick Cannon), os quais lhe revelam que o marido não tem outra, apenas está aprendendo a dançar em segredo. Ainda mais intrigada, Beverly diz o texto que usei aqui como epígrafe:"Por que as pessoas se casam? Porque precisamos de uma testemunha para nossas vidas. Há um bilhão de pessoas no planeta. O que uma única vida significa? Mas num casamento, você promete se importar com tudo. As coisas boas ou ruins, terríveis ou mundanas... Tudo isso, ao mesmo tempo, todos os dias. Você está dizendo que a vida do outro não vai passar despercebida, porque você a está percebendo. Que a vida do outro não vai ficar sem testemunha, pois eu serei sua testemunha."


Na minha opinião, essa frase resume o filme. Ao manter segredo de sua mulher sobre as aulas de dança, John diz querer apenas protegê-la, para não ter de revelar que algo falta em sua vida, que ele não é completamente feliz. Mas ao fazê-lo ele simplesmente quebra o pacto de ser testemunha um da vida do outro, como se dissesse a ela "Não quero sua participação nesse lado da minha vida." No fundo é um homem confuso, sem saber que a amizade profunda que sente por sua mulher, como o pai da minha professora, talvez seja amor.

 



Dança Comigo? é um belíssimo filme que além da linda história, tem como atrativos elaboradíssimos números de dança, personagens cativantes desde os protagonistas até os coadjuvantes com uma única fala, e atores talentosos para dar conta deles. Mas é a reflexão que faz sobre o sentido do casamento e da felicidade que faz com que fique em nossas memórias.

 


Vídeo do grupo Pussycat Dolls interpretando Sway, canção de Pablo Beltrán Ruiz e Norman Gimbel.

 

E  dedico este post à minha querida amiga Renata, por seu amor à dança e por sua vontade de ter uma testemunha...

Nem transviados nem rebeldes, apenas jovens


Filme: JUVENTUDE TRANSVIADA

Nome original: Rebel without a cause (EUA, 1955)

Roteiro: Stewart Stern, adaptação de Irving Shulman de uma história de Nicholas Ray

Produção: David Weisbart

Direção: Nicholas Ray

Outro filme comentado: EASY RIDER - SEM DESTINO

Nome original:  Easy Rider (EUA, 1969)

Roteiro: Peter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern

Produção: Peter Fonda

Direção: Dennis Hopper

A adolescência sempre foi e sempre será uma idade complicada, idade de definições, de descobertas, de tentativas, de experiências. Adultos frequentemente esquecem como foi sua própria adolescência e daí o eterno conflito de gerações. Conflito esse que provoca o preconceito presente tanto no nome original (Rebelde sem causa, na tradução do inglês) quanto no título brasileiro deste clássico de 1955. Os jovens deste filme não são nem transviados nem rebeldes sem causa, são apenas garotos em busca de seu lugar no mundo.

Logo no começo do filme vemos o mito James Dean na pele do adolescente Jim Stark, caído no meio da rua, rindo embriagado com um pequeno brinquedo nas mãos. Só por esse começo já temos idéia da personalidade do rapaz, alguém que se embriaga até cair mas ainda conserva algo da inocência de uma criança. Jim é levado a uma delegacia onde já estão dois outros adolescentes "rebeldes": Judy (Natalie Wood) e Plato (Sal Mineo). Numa tentativa talvez um tanto simplista de explicar o comportamento dos jovens, o roteiro dá aos três problemas com os pais. Judy sente falta do carinho paterno, seu pai acha que ela já é velha demais para receber carinho e reserva todo seu afeto ao irmão menor. Jim sofre por ver o pai fraco demais e dominado pela mãe autoritária e pela avó implicante. E Plato é o mais carente de todos: simplesmente abandonado pelos pais ricos nas mãos da empregada, é o personagem mais trágico do filme. Homossexual numa época em que isso não podia ser dito no cinema, Plato se apaixona por Jim e se ressente com o interesse dele por Judy. O roteiro força um pouco a barra no sentido de mostrar Plato procurando um pai e uma mãe substitutos em Jim e Judy, apenas para disfarçar um pouco a homossexualidade do personagem; mas logo no começo do filme, quando Plato abre a porta do seu armário na escola e vemos lá o pôster do ator Alan Ladd (o astro de Shane, os brutos também amam) no lugar que os rapazes geralmente reservam a alguma gostosona, não resta mais nenhuma dúvida sobre a orientação sexual do personagem.

Jim, por sua vez, é um jovem sem raízes, já que seus pais aparentemente optam por mudar de cidade a cada vez que o rapaz se mete em problemas. Tentando desesperadamente se enturmar, ele acaba se envolvendo com jovens de uma gangue que o desafiam a um jogo perigoso: ver quem demora mais a pular de um carro que corre em direção a um penhasco. Dessa brincadeira resulta uma morte e a união de Jim, Plato e Judy numa casa deserta, brincando um pouco de família feliz até que a realidade venha bater à porta.


Entre os garotos que perseguem o trio pela noite está o muito jovem Dennis Hopper, que anos depois escreveria, dirigiria e estrelaria o clássico dos filmes de estrada Easy Rider -- Sem destino. Tendo revisto os dois filmes mais ou menos na mesma época, tive a fantasia de que o personagem de Hopper em seu próprio filme poderia ser aquele rapazinho que dava uma de valente em Juventude transviada e anos depois ainda estaria em busca de sua própria identidade, desta vez buscando-a na estrada a bordo de uma Harley-Davidson; mas ainda não seria desta vez que a encontraria, num país que tanto prega a liberdade mas que no fundo é refratário a ela e pune os que a exercitam. Como diz o personagem de Jack Nicholson em Easy Rider a Hopper e Peter Fonda: "Eles falam o tempo todo de liberdade do indivíduo. Mas quando eles vêem um indivíduo verdadeiramente livre, eles morrem de medo." 


Além de seus próprios méritos, Juventude transviada também entrou para a história do cinema como o filme que viu seus três protagonistas morrerem tragicamente. James Dean nem chegou a ver o filme pronto: morreu em 1955 num acidente de carro. Sal Mineo foi assassinado por um assaltante em 1976, e em 1981 foi a vez de Natalie Wood nos deixar, afogada ao cair de seu próprio iate. Mas não é por isso que você deve ver este filme, e sim por ser um dos melhores e mais impactantes filmes sobre o conflito de gerações.

Texto originalmente publicado no blog Filmes de cabeceira (o antigo) em 12/01/2005

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