Fogo e paixão

 

Filme: ASSUNTO DE MENINAS

Nome original: Lost and delirious (Canadá, 2001)

Roteiro: Judith Thompson, baseado no romance "The Wives of Bath" de Susan Swan

Produção: Greg Dummett, Lorraine Richard, Louis-Philippe Rochon

Direção: Léa Pool

Lady Macbeth -- "Come, you spirits

That tend on mortal thoughts, unsex me here,

And fill me, from the crown to the toe, top-full

Of direst cruelty! make thick my blood,

(...) come to my woman's breasts,

And take the milk for gall, you murdering ministers,

Wherever in your sightless substances

You wait on nature's mischief!"

(William Shakespeare, Macbeth, act I, scene V)

 

 

 

 

 

Mary (Mischa Barton), uma garota que perdeu a mãe, é enviada pelo pai e pela madrasta para estudar num colégio interno feminino. Lá ela divide o quarto com as amigas Paulie (Piper Perabo) e Victoria, ou Tory (Jessica Paré). Mary, que também atende pelo apelido de Mouse, por se comportar como um ratinho assustado, não demora a descobrir que as duas companheiras de quarto têm um caso secreto, mas não se importa muito com isso. Até que as duas são surpreendidas na cama pela irmã menor de Tory (Emily VanCamp). Esta, então, inventa uma desculpa para a irmã, se afasta de Tory e passa a namorar um colega de seu irmão, Jake (Luke Kirby). Paulie não se conforma com a decisão da amiga e entra em surto.

 

Essa é a trama, mas há vários detalhes que contribuem para que as personagens sejam extremamente ricas e cativantes. Todas as garotas têm algum problema mal-resolvido com as respectivas famílias: Mary sente culpa por não se lembrar bem do rosto da mãe, não se dá com a madrasta e se sente abandonada pelo pai, a ponto de procurar uma figura paterna no jardineiro da escola (Graham Greene); Tory tem tanto medo da reação dos pais carolas à sua relação com Paulie que prefere renunciar a seu amor que enfrentar a família; e Paulie, que é adotada, tenta encontrar a mãe biológica, uma prostituta que foi obrigada a abrir mão da filha recém-nascida, mas descobre que a mãe não quer conhecê-la. O paradoxal é que Mary é a única das três cuja mãe está morta, mas tem certeza de que foi amada por ela, e isso fará toda a diferença no final.

 

Mary é a narradora da história, uma personagem que mais observa do que age, mas fica claro que estamos diante da delicada passagem de menina a mulher, que nesse caso se dá através da amizade com duas mulheres apaixonadas. Paulie, no entanto, é a personagem mais interessante do filme. Logo no começo, ela e Tory se denominam as "garotas perdidas", versão feminina dos garotos perdidos de Peter Pan, e uma delas completa: "Lost and delirious" (perdidas e delirantes, o título original do filme). Pois Paulie se torna cada vez mais delirante à medida que a história avança. Ela adota um falcão machucado e se empenha em curá-lo para que ele possa voar, e o animal acaba se tornando uma metáfora até um tanto óbvia demais para sua natureza rebelde e indomável. Por outro lado, ela se inspira no monólogo de Lady Macbeth que reproduzi acima, em que a ambiciosa rainha de Shakespeare pede aos espíritos do mal que lhe tirem o sexo, que lhe engrossem o sangue, que transformem seu leite em fel, para que assim ela perca a fraqueza feminina e possa realizar seus intentos.

 

A certa altura do filme, Mary pede a Paulie que esqueça Tory, pois esta "não é lésbica". Paulie reage: "Lésbica? Nós não somos lésbicas!" "Mas você é uma garota apaixonada por outra garota..." "Não, eu sou Paulie que ama Tory!" Esse diálogo e o monólogo de Lady Macbeth, na minha opinião, são as chaves para se entender a personalidade de Paulie. Ela não se aceita como homossexual; se se aceitasse, talvez entendesse que aquele não era o fim do mundo, que outras mulheres interessantes apareceriam no futuro. Mas ela acredita que sua relação com Tory é única, e por isso não se conforma em perdê-la. Por outro lado, também tem dificuldades em se aceitar como mulher, talvez por não ter tido uma mãe que funcionasse como modelo feminino, e daí sua obsessão com o texto de Shakespeare.

 



 

Assunto de meninas é um título infeliz, pois dá uma impressão de que o filme canadense é mais uma comedinha teen GLS. Ledo engano: estamos diante de um belo filme, que retrata todo o fogo e paixão que podem consumir um coração adolescente.


Veja aqui um clipe com imagens do filme ao som da belíssima canção You had time, de Ani DiFranco, uma de minhas músicas preferidas e que inclusive comento em meu blog Music is my air:

 

 

 

 

Originalmente publicado no Lost in the movies no dia 4 de julho de 2003; republicado no antigo Filmes de Cabeceira em 19 de junho de 2004.

 

Um cult movie digno do nome

 

Filme: RUMBLE FISH -- O SELVAGEM DA MOTOCICLETA

Nome original: Rumble Fish (EUA, 1983)

Roteiro: S.E. Hinton e Francis Ford Coppola, baseado no romance de S.E. Hinton

Produção: Doug Claybourne, Fred Roos

Direção: Francis Ford Coppola



Rumble Fish – O selvagem da motocicleta, de Francis Ford Coppola, foi um dos filmes que mais marcaram minha adolescência. Por isso, quando vi o DVD à venda nas bancas, não pensei duas vezes. Antes de rever o filme, aproveitei para ler o livro de Susan E. Hinton no qual o filme foi baseado. Tinha comprado o livro na época do filme, editado pela Brasiliense numa coleção chamada Cantadas literárias, voltada aos adolescentes, mas tinha esquecido o livro no fundo da estante e só agora me lembrei dele. (Obs. do autor: Este texto foi originalmente escrito em 2003.)

O filme é bem fiel ao livro, afinal o roteiro do filme foi co-escrito pela autora, que também escreveu o livro que deu origem ao filme Outsiders – vidas sem rumo, dirigido por Coppola na mesma época de Rumble fish e com o mesmo Matt Dillon no elenco. A principal diferença entre livro e filme é a idade dos personagens: no livro, o protagonista Rusty James, vivido por Matt Dillon no filme, tem apenas 14 anos, enquanto seu irmão mais velho, o Motoqueiro interpretado por Mickey Rourke, tem 17. Realmente, faz muito mais sentido ver os personagens tão novos, afinal o livro trata de adolescentes sem muita perspectiva, criados sem mãe e por um pai alcoólatra (Dennis Hopper), cuja única referência de amizade são as gangues.



Mickey Rourke, Dennis Hopper e Matt Dillon

 

O Motoqueiro é um rapaz inteligente e sonhador, mas extremamente perturbado. Sua falta de rumo é simbolizada por um daltonismo que o faz enxergar em preto e branco e uma ocasional surdez que o deixam um tanto isolado dos outros. O momento mais bonito do livro é quando Rusty James, que vivia repetindo querer ser igual ao irmão adorado, se vê por um momento daltônico e surdo, entendendo então que o irmão vivia numa espécie de bolha enlouquecedora. Por isso a decisão do diretor de fazer seu filme em preto e branco, onde as únicas coisas coloridas são os “peixes de briga” (os rumble fish do título original), os quais têm de permanecer isolados uns dos outros para não se atacarem até a morte. “Aposto que soltos no rio eles não brigariam”, diz o Motoqueiro, numa referência óbvia à situação vivida pelos jovens naquela pequena cidade.


 

Além da linda fotografia em preto e branco, os enormes relógios, as nuvens e a fumaça recorrente, o jogo de luz e sombras, são outras características que tornam o filme uma experiência visual inesquecível. Como atrativo adicional para os cinéfilos, há a oportunidade de ver ou rever no frescor da juventude futuros astros como Nicolas Cage, Lawrence Fishburne (que então assinava Larry Fishburne), Diane Lane e até uma ainda criança Sofia Coppola, escondendo-se sob o pseudônimo de Domino.

Rumble fish é um filme que faz jus ao título de cult movie.




Originalmente publicado no blog Lost in the Movies no dia 12 de maio de 2003; republicado no antigo Filmes de cabeceira em 7 de maio de 2004.

 

Delirante, provocativo, polêmico... um filme à frente de seu tempo

 

Filme: PACIENTE ZERO

Nome original: Zero Patience (Canadá, 1993)

Produção: Louise Garfield, Anna Stratton

Roteiro e direção: John Greyson



"If patience is a virtue, then I`m a sinner from hell
Cause we only want one thing:
We just want to be well
If patience is a virtue, then I`ve got none."
(John Greyson, Glen Schellenberg - Zero Patience)


Vi esse filme na época em que foi exibido aqui em São Paulo, em 1993 ou 94, e gostei tanto que depois tentei inutilmente encontrá-lo em vídeo ou DVD. Isso até sexta-feira passada, quando o filme foi escolhido para abrir a mostra especial de filmes sobre AIDS no Espaço Unibanco e assim tive a chance de revê-lo e confirmar a ótima impressão que tive dele. [Nota do autor: esse texto foi originalmente escrito em 10 de agosto de 2004. Hoje, graças a uma loja importadora de cds e dvds da qual sou cliente, sou o feliz proprietário de um dvd importado do filme Zero Patience.]

Na época em que foi exibido, o filme foi recebido a pedradas pela crítica, que não achou graça dessa versão musical e paródica sobre o surgimento da AIDS. Vendo o filme hoje constato que ele estava muito à frente de seu tempo, inclusive levantando questões bastante atuais como o alto preço das drogas contra a doença e o direito dos pacientes a uma medicação gratuita, questão na qual o Brasil tem sido pioneiro. Talvez a produção canadense não tenha agradado a princípio por ter sido feita numa época em que AIDS ainda era sinônimo de morte certa e lenta, e muita gente não suportar ver o assunto tratado com humor. Na minha opinião, e sei que muita gente não concorda, acho que o humor é uma maneira bastante saudável de se tratar de um assunto tabu -- desde que esse humor não seja grosseiro, apelativo ou preconceituoso.

Paciente Zero é uma fantasia que parte do princípio de que o aventureiro e escritor inglês do século XIX, sir Richard Burton (John Robinson), que entre outras façanhas traduziu as Mil e uma Noites e o Kama Sutra para o inglês, não só ainda está vivo como é jovem e belo graças a uma Fonte da Juventude e vive no Canadá como taxidermista de um museu de história natural. Entediado com seu trabalho, Burton, que é chamado de Dick (ou Pinto na tradução brasileira) pelos mais íntimos, resolve investigar a vida do comissário de bordo franco-canadense que era considerado o primeiro homem a trazer a AIDS para a América, e por isso passou para a História como o Paciente Zero (o lindo Normand Fauteux). Sua pesquisa acaba trazendo o fantasma de Zero do além para desmistificar os mitos que cercam a doença e acabar com o preconceito em relação ao tema -- e ainda, de quebra, seduzir o vitoriano sir Richard.

Essa história é contada no formato de um musical camp com uma sonoridade de teclados-anos-80, e as canções servem para que alguns dos "culpados" pela epidemia da AIDS, incluindo gays, toxicômanos, macacos africanos e até mesmo o vírus HIV, na pele de uma drag queen interpretada pelo ator Michael Callen, que morreu da doença logo após as filmagens e a quem o filme é dedicado, possam se defender e desmentir a idéia de que precise haver um "culpado" por uma doença. A ótima trilha sonora, assinada pelo diretor John Greyson e por Glen Schellenberg, inclui até um impagável dueto entre dois cus -- isso mesmo, só vendo pra acreditar!

Paciente Zero pode não ser um filme para todos os paladares, mas no mínimo tem o mérito de abordar um tema polêmico e delicado de uma maneira totalmente original e única.

 

 

"I`m positive I`m here
I`m positive I care
I`m positive that there`s nothing to be sure of
I'm positive, I`m positive, I`m positive I'm alive
I'm positive that I`m going to die...
Sometime"
(John Greyson, Glen Schellenberg - Positive)

(Leia também, em inglês, a ótima crítica escrita por Michael D. Klemm em seu site Cinema Queer.)

 

No vídeo, Normand Fauteux interpreta a canção Just Like Schaharazade, de John Greyson e Glen Schellenberg, que abre o filme.

 

Publicado originalmente no antigo blog Filmes de cabeceira em 10 de agosto de 2004.

 

 

E viva a diversidade!

 

Filme: PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO

Nome original: The adventures of Priscilla, queen of the desert (Austrália, 1994)

Protdução: Al Clark e Michael Hamlyn

Roteiro e direção: Stephan Elliot


 

A drag queen Mitzi (Hugo Weaving), ou Tick quando está "à paisana", cansada da vida em Sidney, recebe um telefonema da ex-mulher lésbica Marion (Sarah Chadwick), gerente de um hotel em Alice Springs, convidando-o para apresentar seu show de transformistas no hotel. Tick convida a colega Felicia (Guy Pearce), ou Adam, uma drag desbocada e muito louca, e a transexual Bernardette (Terence Stamp), que acaba de ficar viúva, para atravessarem o país num ônibus psicodélico batizado de Priscilla, rainha do deserto. Nessa viagem, os três encontram preconceito, violência e também a inesperada simpatia de um grupo de aborígenes. Bernardette encontra até o amor, na pessoa do mecânico Bob (Bill Hunter), e Tick é obrigado a se confrontar com seu medo de assumir a paternidade do garoto Benji (Mark Holmes).

Grande parte do humor de Priscilla é derivado do contraste entre figuras tão urbanas quanto as drag queens e o rústico e inóspito deserto australiano. Priscilla funciona porque seus personagens são complexos e extremamente bem construídos. O filme não paternaliza os personagens, mostrando-os com todas as suas contradições, mesquinharias e humanidade, ao contrário por exemplo daquela terrível imitação americana batizada de Para Wong Foo, obrigada por tudo, Julie Newmar.

A trilha sonora recheada do que há de mais gay na música disco dos anos 70, incluindo de Gloria Gaynor e Village People ao grupo Abba, e os figurinos inacreditáveis contribuem para a delícia que é assistir esse filme. Algumas das cenas inesquecíveis: Adam no teto do ônibus de vestido de cauda prateado dublando uma ária de Verdi; o aborígene (Alan Dargin) que se monta para dublar I will survive; a oriental desbocada (Julia Cortez) que apresenta um infame número envolvendo bolinhas de ping-pong; o "cocozinho" que Adam guarda como se fosse uma relíquia de uma das cantoras do Abba; as três amigas subindo as rochas de vestido e tênis; e o espetáculo que apresentam no hotel, com figurinos que "homenageiam" a fauna e a flora australianas.



 

Priscilla é um filme que realmente celebra as diferenças e a diversidade, com humor e sem demagogia.


No vídeo, Hugo Weaving, Guy Pearce, Terence Stamp e Alan Dargin dublam Gloria Gaynor para alegria dos aborígenes!

 

Originalmente publicado no blog Lost in the movies em 21 de julho de 2003; republicado no antigo Filmes de cabeceira em 29 de junho de 2004.

Todos precisamos de uma testemunha

 

Filme: DANÇA COMIGO?

Nome original: Shall we dance? (EUA, 2004)

Roteiro: Audrey Wells, baseado no roteiro de Masayuki Suo para o filme Shall we dansu?

Produção: Simon Fields

Direção: Peter Chelsom

"We need a witness to our lives. There's a billion people on the planet... I mean, what does any one life really mean? But in a marriage, you're promising to care about everything. The good things, the bad things, the terrible things, the mundane things... all of it, all of the time, every day. You're saying 'Your life will not go unnoticed because I will notice it. Your life will not go un-witnessed because I will be your witness'."
(fala de Susan Sarandon em Dança Comigo?)


Tive uma professora de Ciências na sétima série que teoricamente deveria incluir educação sexual no currículo, mas embora fosse uma mulher jovem e bonita, nesse departamento só dizia bobagens, que não vale a pena repetir aqui. Mas às vezes ela também resolvia dar uma de expert em relacionamentos, e uma vez nos contou que seu pai a chamou para uma conversa séria e lhe disse que não amava mais sua mãe. "Eles vão se divorciar", foi o que ela pensou imediatamente. Mas o pai continou: "O amor acabou, mas se transformou numa amizade profunda, tão valiosa que eu não saberia viver sem sua mãe." Mesmo na inocência dos meus 13 anos, lembro que pensei, "Mas não será justamente essa amizade profunda o verdadeiro amor, e aquilo que acabou era só o fogo da paixão?"


Pois é dessa questão que trata o filme Dança Comigo?, refilmagem americana de um filme japonês de mesmo nome. Eu vi o filme japonês há muito tempo atrás, tanto que não me recordo bem dele, mas sei que há muita gente que prefere o filme original ao americano. Esse geralmente é o meu caso também, mas nesse caso específico, talvez por ser ocidental e me identificar mais facilmente com a sociedade americana do que com a japonesa, tenho que ser fiel à minha preferência pela refilmagem, e é dela que falaremos aqui.


John Clark (Richard Gere) é um advogado especializado em testamentos, que tem uma vida aparentemente estável e feliz com a esposa, Beverly (Susan Sarandon) e os dois filhos adolescentes, um casal (Tamara Hope e Stark Sands). Um dia, voltando do trabalho de trem como sempre faz, John avista a janela de uma escola de dança e nela vê uma mulher que olha para fora, com um olhar de tristeza e nostalgia com o qual ele se identifica, pois percebe que há algo faltando em sua vida, algo que não consegue exatamente nomear. Depois de ver a mesma mulher repetidas vezes, um dia num impulso John sai do trem naquela estação e vai à escola de dança, decidido a descobrir o mistério daquela mulher. Como para isso é necessário se matricular na escola, ele o faz e imediatamente começa a ter aulas com a proprietária, a sra. Mitzi (Anita Gillette), e ganha dois "colegas de classe", o desajeitado e obeso Vern (Omar Miller), que quer aprender a dançar para impressionar sua noiva (participação especial da cantora Mya Harrison), e o falastrão latino Chic (Bobby Cannavale), o qual vive repetindo que quer aprender a dançar para seduzir garotas, embora a verdade não seja bem essa. John também fica conhecendo outras figuras para quem a dança é importante parte de suas vidas: é o caso da esfuziante Bobbie (Lisa Ann Walter), uma mulher de meia idade, solitária, que encontra na dança uma razão pra seguir vivendo, e o envergonhado Link (Stanley Tucci), um jornalista esportivo que na verdade odeia esportes e se disfarça de amante latino, de peruca e tudo, para frequentar as aulas de Miss Mitzi.


No meio de toda essa gente circula a misteriosa e enigmática figura da professora Paulina (Jennifer Lopez, que se sai muito bem num papel extremamente introvertido, bem diferente de sua persona pública). Paulina parece levitar pelo salão, encantando a todos com sua técnica e habilidade para a dança, mas pouco fala e mantém sempre o olhar triste, o que aumenta o fascínio de John. Ele fica sabendo que a tristeza da moça vem de um trauma ao mesmo tempo emocional e profissional, mas quando tenta se aproximar, leva um "chega-pra-lá" capaz de desencorajar qualquer Casanova. Pensa em desistir das aulas, mas acaba percebendo que o hábito de dançar todas as semanas o torna uma pessoa mais leve, e por que não dizer, mais feliz, e segue dançando.

Ao ver o marido tão feliz, e tão diferente do habitual, a esposa, como é natural, pensa que o marido arrumou uma amante e contrata uma dupla de detetives (os impagáveis Richard Jenkins e Nick Cannon), os quais lhe revelam que o marido não tem outra, apenas está aprendendo a dançar em segredo. Ainda mais intrigada, Beverly diz o texto que usei aqui como epígrafe:"Por que as pessoas se casam? Porque precisamos de uma testemunha para nossas vidas. Há um bilhão de pessoas no planeta. O que uma única vida significa? Mas num casamento, você promete se importar com tudo. As coisas boas ou ruins, terríveis ou mundanas... Tudo isso, ao mesmo tempo, todos os dias. Você está dizendo que a vida do outro não vai passar despercebida, porque você a está percebendo. Que a vida do outro não vai ficar sem testemunha, pois eu serei sua testemunha."


Na minha opinião, essa frase resume o filme. Ao manter segredo de sua mulher sobre as aulas de dança, John diz querer apenas protegê-la, para não ter de revelar que algo falta em sua vida, que ele não é completamente feliz. Mas ao fazê-lo ele simplesmente quebra o pacto de ser testemunha um da vida do outro, como se dissesse a ela "Não quero sua participação nesse lado da minha vida." No fundo é um homem confuso, sem saber que a amizade profunda que sente por sua mulher, como o pai da minha professora, talvez seja amor.

 



Dança Comigo? é um belíssimo filme que além da linda história, tem como atrativos elaboradíssimos números de dança, personagens cativantes desde os protagonistas até os coadjuvantes com uma única fala, e atores talentosos para dar conta deles. Mas é a reflexão que faz sobre o sentido do casamento e da felicidade que faz com que fique em nossas memórias.

 


Vídeo do grupo Pussycat Dolls interpretando Sway, canção de Pablo Beltrán Ruiz e Norman Gimbel.

 

E  dedico este post à minha querida amiga Renata, por seu amor à dança e por sua vontade de ter uma testemunha...

Nem transviados nem rebeldes, apenas jovens


Filme: JUVENTUDE TRANSVIADA

Nome original: Rebel without a cause (EUA, 1955)

Roteiro: Stewart Stern, adaptação de Irving Shulman de uma história de Nicholas Ray

Produção: David Weisbart

Direção: Nicholas Ray

Outro filme comentado: EASY RIDER - SEM DESTINO

Nome original:  Easy Rider (EUA, 1969)

Roteiro: Peter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern

Produção: Peter Fonda

Direção: Dennis Hopper

A adolescência sempre foi e sempre será uma idade complicada, idade de definições, de descobertas, de tentativas, de experiências. Adultos frequentemente esquecem como foi sua própria adolescência e daí o eterno conflito de gerações. Conflito esse que provoca o preconceito presente tanto no nome original (Rebelde sem causa, na tradução do inglês) quanto no título brasileiro deste clássico de 1955. Os jovens deste filme não são nem transviados nem rebeldes sem causa, são apenas garotos em busca de seu lugar no mundo.

Logo no começo do filme vemos o mito James Dean na pele do adolescente Jim Stark, caído no meio da rua, rindo embriagado com um pequeno brinquedo nas mãos. Só por esse começo já temos idéia da personalidade do rapaz, alguém que se embriaga até cair mas ainda conserva algo da inocência de uma criança. Jim é levado a uma delegacia onde já estão dois outros adolescentes "rebeldes": Judy (Natalie Wood) e Plato (Sal Mineo). Numa tentativa talvez um tanto simplista de explicar o comportamento dos jovens, o roteiro dá aos três problemas com os pais. Judy sente falta do carinho paterno, seu pai acha que ela já é velha demais para receber carinho e reserva todo seu afeto ao irmão menor. Jim sofre por ver o pai fraco demais e dominado pela mãe autoritária e pela avó implicante. E Plato é o mais carente de todos: simplesmente abandonado pelos pais ricos nas mãos da empregada, é o personagem mais trágico do filme. Homossexual numa época em que isso não podia ser dito no cinema, Plato se apaixona por Jim e se ressente com o interesse dele por Judy. O roteiro força um pouco a barra no sentido de mostrar Plato procurando um pai e uma mãe substitutos em Jim e Judy, apenas para disfarçar um pouco a homossexualidade do personagem; mas logo no começo do filme, quando Plato abre a porta do seu armário na escola e vemos lá o pôster do ator Alan Ladd (o astro de Shane, os brutos também amam) no lugar que os rapazes geralmente reservam a alguma gostosona, não resta mais nenhuma dúvida sobre a orientação sexual do personagem.

Jim, por sua vez, é um jovem sem raízes, já que seus pais aparentemente optam por mudar de cidade a cada vez que o rapaz se mete em problemas. Tentando desesperadamente se enturmar, ele acaba se envolvendo com jovens de uma gangue que o desafiam a um jogo perigoso: ver quem demora mais a pular de um carro que corre em direção a um penhasco. Dessa brincadeira resulta uma morte e a união de Jim, Plato e Judy numa casa deserta, brincando um pouco de família feliz até que a realidade venha bater à porta.


Entre os garotos que perseguem o trio pela noite está o muito jovem Dennis Hopper, que anos depois escreveria, dirigiria e estrelaria o clássico dos filmes de estrada Easy Rider -- Sem destino. Tendo revisto os dois filmes mais ou menos na mesma época, tive a fantasia de que o personagem de Hopper em seu próprio filme poderia ser aquele rapazinho que dava uma de valente em Juventude transviada e anos depois ainda estaria em busca de sua própria identidade, desta vez buscando-a na estrada a bordo de uma Harley-Davidson; mas ainda não seria desta vez que a encontraria, num país que tanto prega a liberdade mas que no fundo é refratário a ela e pune os que a exercitam. Como diz o personagem de Jack Nicholson em Easy Rider a Hopper e Peter Fonda: "Eles falam o tempo todo de liberdade do indivíduo. Mas quando eles vêem um indivíduo verdadeiramente livre, eles morrem de medo." 


Além de seus próprios méritos, Juventude transviada também entrou para a história do cinema como o filme que viu seus três protagonistas morrerem tragicamente. James Dean nem chegou a ver o filme pronto: morreu em 1955 num acidente de carro. Sal Mineo foi assassinado por um assaltante em 1976, e em 1981 foi a vez de Natalie Wood nos deixar, afogada ao cair de seu próprio iate. Mas não é por isso que você deve ver este filme, e sim por ser um dos melhores e mais impactantes filmes sobre o conflito de gerações.

Texto originalmente publicado no blog Filmes de cabeceira (o antigo) em 12/01/2005

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